Projeto carioca NINGUÉM faz sambalanço psicodélico sobre conexões em “Fora do Alcance”

Em “Fora do alcance”, o cantor provoca: “Imagina você querendo falar comigo / Querendo entender, especulando um sentido”. Buscando as conexões humanas em uma sociedade de desencontros, o projeto NINGUÉM lança um vídeo inspirado nas artes plásticas para a faixa com um clima da malandragem carioca e que dá luz para o escopo sonoro e lírico do EP “Balanço Oculto, Vol. II”, de 2022. O beatmaker/ritmista, compositor e produtor musical Compay Oliveira reimagina, ressignifica e recria a pós-MPB com olhar de vanguarda, reverenciando o passado e refletindo o presente, com intimidade e bom humor.

 

 

A trilogia “Balanço Oculto” está ancorada na rítmica e lírica aberta por Jorge Ben Jor na música brasileira. Compay mergulha ainda na estética dos artistas brasileiros entre os anos 90 e 2010, quando formou suas aspirações como compositor ao observar aqueles que fugiam às regras e não se rendiam aos padrões. 

 

“Eu tenho a pretensão de cantar a nossa época no sentido de tentar ser capaz de criar uma lírica sobre o nosso tempo. Ao mesmo tempo, obedecendo meu impulso criativo mais próprio, devo dizer que esse sentido político artisticamente almejado por mim é moldado, evidentemente, pela minha identificação com a música aberta pelo Jorge Ben Jor – e, assim, através dele, minha referência maior, me ilumino com os Originais do Samba, Trio Mocotó, Bebeto, entre eles”, conta o artista.

 

Em “Fora do Alcance”, ele traz a percussão de Roque Miguel (Afrojazz, Marcelo D2) e da dobradinha paulista Átila Silva e Everton Martins, da Banda Nova Malandragem, arranjada pelo produtor também paulista Levi Keniata (Nebulosa Selo). O clipe da música, gravado na própria casa do artista, parece simples, mas vem carregado de significados.

 

“Por um interesse mútuo em Frantz Fanon, uma referência crítica no campo teórico e político sobre a questão racial e colonial, o diretor Arthur Martins e eu chegamos à ideia de fazer uma brincadeira visual com um quadro surrealista de René Magritte intitulado “As férias de Hegel” (1958), suspendendo a cadeira por cima de mim”, revela.

 

O interesse de Compay pela música por um prisma de criação coletiva foi gestado na Orchestra Binária, trio que passou a integrar em 2004, mas foi ainda na adolescência, na Cidade de Deus, que o músico foi se formando. 

 

Compay Oliveira atua na cena independente carioca desde o início dos anos 2000. Agora, seu trabalho solo começa a ganhar forma com a trilogia “Balanço Oculto”, cujo primeiro volume foi lançado em 2020, seguido do single “Menos que Nada”. Esses primeiros lançamentos chamaram atenção da mídia especializada dentro e fora do país, como na rádio KBCS (EUA) e Sounds and Colours (EUA/Reino Unido).

 

 

Enquanto a primeira parte do projeto trazia tons jamaicanos, graças à colaboração com o produtor e baterista Fernando ChinDub, atuante na cena reggae e dub de São Paulo, agora o músico se volta para suas origens no sambalanço e samba rock somando a produção de multiartista Arthur Martins. Helder Dutra e Marcio Silva, que integram a Orchestra Binária ao lado de Compay, surgem com Ocres de Nantes nos coros. Cuíca, reco-reco, ganzá, surdo e agogô dividem e somam à guitarra e piano rhodes, tudo no balanço do duo de sopros formado por trombone e trompete.

 

Em meio a beats e toques, riffs e roques, NINGUÉM ecoa suas raízes para criar uma voz própria. O resultado são três canções que abrem mão de qualquer pretensão retrô ou ansiedade contemporânea. O músico se guia pela própria guitarra para criar divisões rítmicas e questionamentos líricos. 

 

Assim como NINGUÉM se faz alguém no novo cenário alternativo carioca, “Balanço Oculto, Vol. II” é uma declaração de presença notória e de maturidade palpável de um compositor que evolui sua estética musical a cada lançamento. O novo álbum está disponível nas principais plataformas de música e o clipe, no canal do YouTube do artista.

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