Pelicano, tecladista do Camurça, fala sobre arte, política e futuro da banda

A banda Camurça surgiu na pandemia e, após um ano, celebra diversos lançamentos, presença em mídias de relevância nacional e já de olho no que vai lançar ainda em 2021. Uma novidade é o ingresso do tecladista Pelicano, que concede esta entrevista exclusiva ao Cabana da Música. Leia!

Pelicano, você entrou na banda na Camurça no meio da pandemia. Como tem sido essa experiência? Apesar de eu ser um novo integrante do projeto atual, eu já fiz parte da banda há alguns anos em uma outra momento. O que muda agora, além de que, ao meu ver, a banda hoje tem uma maturidade e um foco muito diferente do que tinha há três anos, é justamente o fator ansiedade e o fator ócio.

Até agora nem conheci a banda toda direito e a gente nunca tocou nada juntos. Tá sendo um período muito importante pra alinhar planos e expectativas mas ao mesmo tempo é um período pra aprender a lidar com a ansiedade e a frustração de ter um monte de planos engatilhados que estão só esperando, assim como todos nós, a tal da vacina.

E nesse meio tempo, sem shows e ensaios e com o cenário musical totalmente afetado pela pandemia, como “manter a forma” como músico, Pelicano?
Acho que músico é um bicho que aprendeu que pra tocar um instrumento musical, é necessário paciência, estudo, referência e constante atualização. O músico nunca para de estudar. Mesmo quando ele acha que não tá estudando, ele tá. Posso falar por mim: eu tô o tempo todo analisando música.

 

Pelicano do Camurça

Pelicano fala sobre a banda Camurça

Se eu estou ouvindo um álbum, estou analisando harmonia; se estou ouvindo uma batida, estou pensando em como transcrever aquilo. Vendo um show, estou analisando performance, produção, figurino. É inevitável. E o que hoje mais me ajuda mesmo a ter um estudo mais concreto é o conservatório. Até hoje estudo música porque sempre tem alguma coisa nova que me desperta a curiosidade e eu quero ir lá e fazer.

Por último e não menos importante, vira e mexe eu faço live pra matar um pouco a sede de público. Juntam ali umas 4-5 pessoas e que já são o suficiente pra fazer meu coração bater mais forte. Inclusive, para o leitor que quiser participar, me siga no Instagram @vmigliari e peçam suas músicas via direct.

Com tanta espera e planejamento para o futuro, quais as suas expectativas pra banda e pra você num cenário pós-pandemia, Pelicano?
Como um bom ansioso, a pandemia já me forneceu todo o tempo do mundo pra eu planejar as próximas 13 encarnações. A banda tem um futuro muito promissor, pelo trabalho que já fez, pelo trabalho que está sendo feito, pelos músicos de altíssimo calibre e pelos movimentos estratégicos. Seria ingenuidade da minha parte achar que a Camurça não está se preparando pra ganhar o Brasil nos próximos anos. E porque não o mundo, né? Sonhar pequeno é sonhar grande dá o mesmo trabalho.

Pra mim, desde já é uma honra indescritível poder ocupar uma cadeira de prestígio nesse projeto. Eu hoje estou me preparando pra uma reviravolta. Eu estudo piano desde os 4 anos, e apesar de trabalhar como publicitário, já vinha sentindo que a música passava a me chamar com mais frequência. Como se algo me dissesse que eu precisava rever alguns planos e tirar a poeira de alguns sonhos, e a Camurça tá me proporcionando isso. Agora é só segurar a ansiedade e continuar trabalhando.

Pelicano, você fala sobre ganhar o país e talvez o mundo. A sociedade tem mudado muito seu comportamento por conta da pandemia e questões políticas-sociais. Como o cenário social mundial de hoje influencia na sua música?
A gente vive, desde a popularização da internet, uma era de opiniões e de pessoas que, por muitas vezes, não estão dispostas a debater as suas. Talvez não seja a era da opinião mas a era da ignorância escancarada. Não digo que as pessoas não devem ter direito a suas opiniões. Digo que se você é corajoso o suficiente pra assumir uma opinião, deveria ser preparado para defendê-la ou ser maduro para deixá-la. Ou ainda melhor: se assumir alheio a uma, se for o caso, e aberto a várias.

A “gente” elegeu um adolescente pra presidência pelas opiniões chulas dele. Isso é o retrato de uma nação privada de educação básica. Não tem nada mais triste que ver a molecada de 12 a 18 anos, que nem necessariamente exercem o direito de votar, vomitando ódio e intolerância contra a minoria social.

Antigamente você ouvia uns absurdos institucionalizados em tom de inverdade. Hoje você vê uma criança destilando ódio genuíno e embasado em pseudo literatura. O caminho para arrumar isso é muito mais longo. O tio que antes era só homofóbico, hoje tem um filho que lê Olavo de Carvalho e assiste Nando Moura. E ambos escutam Pink Floyd e assistem Star Wars sem entender nada.

Eu dei essa volta toda pra chegar no ponto de que a música, ou melhor, a arte como um todo, tem um papel transgressor importantíssimo. Foi por meio da arte que direitos foram conquistados, pessoas foram conscientizadas e cursos narrativos tiveram outros finais menos trágicos. A arte, na minha opinião, sempre encontra seus maiores propósitos em tempos de caos. É só olhar ao redor e se perguntar se tudo isso já não é um prato cheio.

Para finalizar. Você teria um recado pra quem pretende ingressar no caminho da música?
Um não. Teria alguns. Primeiro e, sem dúvidas, o mais importante: estude muito. Treine muitas e muitas vezes. A gente vive uma época que se tem respostas e resultados muito rápidos em poucos cliques e isso tá construindo um exército de gente medíocre e frustrada. Então tenha paciência. Fazer música exige tempo. Muito tempo. A evolução leva anos mas dá pra curtir muito cada nova descoberta.

Segundo: divirta-se. Se o processo de aprender música não tá sendo prazeroso, então tem algo errado.

Terceiro: tenha em mente que você não é e não deve ser bom como fulano, rápido como ciclano… Encontre o seu jeito de fazer. Isso também leva tempo e você começou agora. Nem muito tarde, nem muito cedo. Você tá no seu tempo e esse é o tempo certo.

Por último e definitivamente não menos importante: não seja um c*zão. Não ache que porque você está estudando música, você é o detentor da arte acima do bem e do mal. Não é porque determinado gênero ou determinado artista não agrada o seu gosto pessoal que, necessariamente, o trabalho dele é ruim.

Não desmereça o trabalho de quem ainda não chegou onde você chegou ou que escolheu não chegar. A arte é e deve ser democrática, senão, amanhã é você que vai estar sendo silenciado por alguém mais cuzão que você.

Sobre o Camurça
Ouça ‘No Miolo do Oco’ no streaming (https://bit.ly/_no_miolo-do_oco) e em lyric video: https://www.youtube.com/watch?v=V18Ltc7B86U.

O clipe da música ‘Cuida’, o último dos lançamentos, veio para consolidar o trabalho da banda e quebrar de vez qualquer amarra a um só estilo musical. Uma animação que ilustra a história na canção, produção de Handel Meireles, com roteiro de Enzo. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=uoI4FyQqVBk.

Acompanhe o trabalho do Camurça: instagram.com/sigacamurca.

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