CABANA ENTREVISTA: Kanduras conta detalhes sobre novo EP, ‘Horizonte na Estrada’

Raphael Thebas, vocalista da Kanduras, conversou com a gente sobre o processo de criação de ‘Horizonte na Estrada‘, EP que representa um momento de reinvenção da sonoridade da banda

Em abril de 2020, a Kanduras lançava seu primeiro disco cheio, ‘Dístico‘, muito bem recebido e aclamado. O cenário no Brasil e no mundo era novo e caótico, com quarentena e isolamento social para evitar a propagação da Covid-19. Nesse contexto, muita gente conheceu o som da banda e seu disco como uma grata surpresa que ajudaria a suportar o ócio de tempos difíceis e solitários. O que ninguém sabia era que esses tempos não ficariam para trás tão cedo. Mas ver uma luz no fim do túnel é necessário para que possamos resistir. Assim foi com a Kanduras, que, guarnecida de esperança, apresenta agora o seu mais novo EP, ‘Horizonte na Estrada‘.

Kanduras Jardim das Intenções

Capa do EP “Horizonte na Estrada” – Foto: Bruna Nepomuceno / Montagem: Marcelo Gasperin

Convidamos o vocalista e guitarrista Raphael Thebas para bater um papo com a gente, revelar alguns detalhes sobre o novo lançamento e refletir sobre o atual contexto do país e do mundo.

“A gente vê um horizonte na estrada

Era 2019/2020. ‘Dístico‘ chegou com um conceito específico, falando de tudo em dualidades, tanto que foi lançado em duas partes. O conceito era refletir sobre momentos vividos nos últimos tempos e as mudanças como movimento natural da vida. Com o disco no mundo, a ideia era poder fazer muitos shows de lançamento em várias cidades, mas, com a pandemia, tudo foi estagnado. Já imersos na saudade, palavra que ganhou um novo significado com o isolamento social, lançaram o sensível EP ‘Cidade-Saudade‘ — gravado em casa, com a presença do mais novo integrante da banda, Thiago Romaro (voz e guitarra).

A saudade permanece, talvez até com mais intensidade, mas junto dela agora vem a esperança. Se estamos firmes aqui, foi porque conseguimos resistir, e foi possível ver um horizonte na estrada. E é sobre isso o mais novo EP da Kanduras, que estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir de sexta-feira (15/10).

As músicas são mesmo sobre saudade. O nosso ponto de vista sobre a saudade do mundo em que estávamos vivendo, as coisas boas que estavam acontecendo, e, ao mesmo tempo, uma certa revolta com as coisas que não foram administradas no país. 2022 vai ser um ano muito importante pra todos nós. A saída de uma pandemia efetivamente, se tudo der certo. Ao mesmo tempo, a saída de um governo inacreditável. Então a gente vê um Horizonte na Estrada. A gente espera que tudo isso aconteça. É uma mensagem esperançosa, mas que trata e toca nos assuntos tristes que tem acontecido“, reflete Thebas, voz da Kanduras.

Mais guitarras, menos metais

Raphael Thebas conta que, após o lançamento do EP ‘Cidade-Saudade‘, a comunicação entre os músicos da banda ficou só a distância, e, com a falta de shows, algumas atividades cessaram. Já em 2021, voltaram a se reunir para alguns ensaios, e tiveram a ideia de juntar composições que fizeram nesse período de pandemia para gravarem um novo trabalho. Passaram dias em um sítio no interior paulista, como um retiro criativo para compor, arranjar e pré-produzir as faixas.

A chegada de Thiago Romaro (mais conhecido como Che) diversificou ainda mais as composições e a sonoridade da banda, já que, como Thebas, Che também canta e compõe, além da habilidade na guitarra. O novo EP ‘Horizonte na Estrada‘ tem 4 canções, sendo que a primeira, ‘Jardim das Intenções‘ (lançada como single em setembro) foi escrita por Thebas, e as demais são composições do Che.

Quem já conhece a sonoridade da Kanduras, principalmente se já curtiu a banda ao vivo, sabe que a companhia de um naipe de metais é característica. Tá aí uma das novidades do EP ‘Horizonte na Estrada‘, já que a presença dos metais é nula em todas as faixas. A principal razão que levou a essa mudança foi a necessidade em tornar os processos e os encontros mais reservados, isso porque ainda estamos em pandemia. Então foram só os 4 integrantes para o sítio, e depois partiram para o estúdio com o produtor Carlos Bechet. A falta dos metais marca uma fase mais indie rock da Kanduras, um som mais guitarrado em comparação aos trabalhos anteriores, com influências diversas, passando por ritmos como a bossa, o jazz e o rock inglês.

Uma coisa foi consequência da outra. A gente sentia que as novas músicas tinham uma cara diferente daquela coisa mais “Brasil”, presente nos nossos últimos trabalhos. Então a gente aproveitou o contexto da pandemia pra fazer um trabalho com mais influências de guitarra, e tiramos os metais especificamente nesse trabalho“, conta Thebas.

As letras e as imagens

Tanto nas letras, como na sonoridade, a sensibilidade e delicadeza da Kanduras é sempre evidente. Um EP construído com base na saudade, um sentimento tão angustiante, poderia transmitir tristeza, mas aqui acontece o contrário. Em ‘Horizonte na Estrada‘, saudade tem gosto de espera, aquela espera que o professor Paulo Freire tanto reverberava, não do verbo esperar, mas do verbo esperançar. É como o próprio Thebas resumiu no nosso papo:

“O trabalho começa relativamente mais suave, embora não seja, porque a saudade é doída. E depois ele vai ficando mais escuro, inclusive o filme. No final das contas, tudo é saudade; até a revolta é saudade. A saudade de como era o Brasil antes”

As faixas refletem sobre a saudade em vários contextos; desde a falta que faz o amor e o afeto, até a falta que faz um bom lugar para se viver. A sonoridade e as letras poéticas fazem tudo ficar leve, tranquilo e agradável de escutar. Além de ser disponibilizado nas plataformas de áudio, o EP é lançado no YouTube com um vídeo, como se fossem clipes em um filme só. São registros visuais de momentos de descontração que passaram no sítio, ensaios, gravações, e, inclusive, imagens de protestos contra o desgoverno atual do país. O álbum visual encerra com o pôr do sol, registrado no sítio, ao som da última e relaxante faixa, ‘Garota‘.

Sobre as curiosidades por trás das letras das músicas, Thebas nos conta algumas. A mais interessante parece ser a ‘Morcegos‘, que foi escrita no sítio. Che encontrou poesia em meio à festa que morcegos faziam no forro do telhado de uma casa de madeira, onde estavam. O resultado é uma canção que representa o atual cenário do país, perfeitamente ilustrada no vídeo com cenas dos protestos contra o Bolsonaro e sua má gestão, principalmente no que se refere à negligência durante a pandemia.

Tanto ‘Morcegos‘, quanto ‘Porto Inseguro‘ foram canções feitas pelo Che, e depois arranjadas em conjunto. Enquanto isso, a última faixa ‘Garota‘ é uma canção curta, sem refrão. Apesar de não parecer, esta não foi gravada em estúdio. O processo foi simples, e os arranjos contam só com guitarra e sintetizador.

O futuro da Kanduras

A banda pretende retomar, logo que possível e seguro, com o ritmo de antes da pandemia. O propósito é voltar a planejar o segundo disco, com músicas novas que estão guardadas na gaveta, e, principalmente, matar a saudade dos palcos com as canções lançadas nesse período. Não se sabe nada sobre o futuro, principalmente porque o contexto atual afetou até mesmo o funcionamento das casas de shows, já que muitas foram fechadas. Mas se faz jus à mensagem central do EP: Há um horizonte na estrada, e é preciso enxergá-lo com esperança e resistência. É a luz no fim do túnel, o sonho de poder viver as coisas simples, aquelas que antes tínhamos e nem dávamos conta de que eram tão valiosas.

EP ‘Horizonte na Estrada’ – Vídeo:

Clique aqui para ouvir o EP ‘Horizonte na Estrada’ nas principais plataformas. 

Voz e guitarra: Raphael Thebas;
Voz e guitarra: Thiago Romaro;
Baixo: Marcelo Gasperin;
Bateria: Junior Breed;
Teclados e sintetizadores: Carlos Alberto Ranoya;
Gravado em: Wiro Estúdio / Por: Carlos Bechet;
Assessoria de imprensa: Cainan Willy.

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