No 7 de Setembro, Emílio Dragão dá o grito de resistência em “Crônicas de um Brasil Distópico”

“Crônicas de um Brasil Distópico” reflete sobre os últimos acontecimentos políticos, sociais e ambientais no país

Cronicas de Um Brasil Distopico

Foto: Luana Buenano

7 de setembro de 2021. Quase 200 anos depois da data marcada pelo grito da independência, o Brasil é tudo, menos um país verdadeiramente soberano. Uma parte desse país, vestida de verde-amarelo e fanatismo, escolheu ir às ruas apoiar um golpe contra sua própria nação, uma insurreição contra a democracia. Realmente, e infelizmente, “distópico” define o cenário atual do Brasil, que respira por aparelhos e vê sua liberdade se esvair cada vez mais. “Crônicas de um Brasil Distópico“, álbum solo de Emílio Dragão, é uma reflexão musical contínua e cronológica sobre os últimos anos do Brasil e os acontecimentos que desencadearam a atual conjuntura.

A carreira de Emílio Dragão, desenvolvida em grande parte na banda mineira Djambê, é consagrada por 27 prêmios em festivais brasileiros. Seu novo álbum solo representa, além de um desabafo, uma experiência única como artista, já que as onze faixas foram compostas, gravadas, mixadas e masterizadas por ele mesmo, durante a pandemia. Cantor, compositor e multi-instrumentista, vê a música e suas experimentações como uma forma de pensar e reverberar de forma crítica as coisas da vida e as ações humanas.

Foto: Luana Buenano

Crônicas de um Brasil Distópico” se abre com “Relato Regional Recente“, um tautograma – nome dado ao texto poético formado somente por palavras que iniciam com a mesma letra – que questiona a postura reacionária e retrógrada, e convida quem ouve a se questionar junto: “Reparem: responsabilizem-se! Reformulem relação, reação! Rabo-de-arraia rompa rede. Redesenhe redentora real reunificação“.

A faixa seguinte sugere seu conteúdo pelo nome: “Out 2018“. A canção foi escrita assim que foi divulgado o resultado das eleições de 2018, como um ato de resistência em meio à sensação de derrota: “Feliz de ver quem tá triste junto do meu lado, chorando um pranto amargo“. Acima de tudo, Dragão destaca que não é hora de abaixar a cabeça, mas, sim, transformar o luto em verbo e agir coletivamente.

Caminhando de mãos dadas pela escuridão, luto é verbo e lanterna sempre coração.”

Trecho de “Out 2018”

Capa: Rapha Baggas

Destilando ódio por aí, sem perceber que isso vai te fazer afogar no próprio sangue“. Assim começa “Aspereza“, mais um grito de afronta e resistência como uma forma de sobreviver em meio ao caos político-social. A próxima faixa segue a mesma proposta, mas agora refletindo sobre os desastres causados pelo agronegócio. Uns anos atrás, a música “O papa é pop“, de Engenheiros do Hawaii, virou referência para a propaganda midiática “O Agro é pop“, e, agora, a 4ª faixa de “Crônicas de um Brasil Distópico” faz referência à mesma canção que explodiu nos anos 90 para lembrar que “o Agro não é pop, o Agro é tóxico, o Agro não poupa ninguém“.

Guadalupe (O Diabo Veste Farda)“, “De Machista pra Machista“, “Bacurau“, “Fogo no Bozo“, “Genocida Cagão“, “Interlúdio (O Homem da Casa de Vidro)“, são os nomes das faixas seguintes do álbum, que, por sinal, foram muito bem escritas e produzidas por Emílio Dragão, e atingem o propósito do convite à reflexão. Forte e afrontoso como se propõe a ser, com uma expressão poética semelhante à obras de artistas como Belchior, “Crônicas de um Brasil Distópico” termina com “Carta pra aquecer seu coração“, um suspiro de esperança, uma faixa mais calma e afetuosa, “um abraço forte em forma de canção“, para todas as pessoas que entendem e sentem na pele a gravidade do momento em que vive o país. O que se tem é uma coleção de canções que descrevem, relatam e desabafam, mas, sobretudo, carregam a leveza de ainda sonhar por um povo livre e autônomo, e um genocida atrás das grades.

Ouça o álbum “Crônicas de um Brasil Distópico“, de Emílio Dragão:

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