‘Drão’ e ‘Nossa’: as diversas camadas do amor

Se existem diferentes formas de amar, há claro diversas formas de expressar esse sentimento. No disco ‘Um Banda Um’, Gilberto Gil nos entrega diferentes camadas de amor nas cartas sonoras ‘Drão’ e ‘Nossa’. 

'Drão' e 'Nossa' Gilberto Gil

Eu imaginava ter crescido em um ambiente de afeto complexo, martelei essa rigidez durante um bom tempo no pensamento. Até que o retorno de saturno fez seu trabalho e começou a me lançar a memória de vários pequenos acontecimentos que me apresentaram as delícias de uma infância que eu não lembrava. 

Como da vez que meus pais me fizeram acreditar em Papai Noel com um pequeno pacotinho embaixo da nossa espada-de-São Jorge em uma manhã de Natal. Simples, sem grandes ruídos, uma caixinha embalada em um papel verde estampado de Papais-noéis. Dentro um celular de brinquedo, que eu acreditei que milagrosamente chegou ali, até porque era exatamente o que eu queria, mas que eu não havia dito a ninguém. Só Papai Noel poderia ter lido minha mente, adivinhado meu desejo.

O que o tempo me fez amadurecer foi a certeza que por mais perdidos na parentalidade que eles fossem, existiam momentos de sutileza e do “olhar o que eu estava olhando”. Do jeito deles, eles me observavam e sabiam o que eu queria, sentia. As dores do crescer embotaram muitas lembranças queridas e potencializaram as que nunca deveriam ter sido vividas, mas o tempo apazigua muito em nós, inclusive a nossa maneira de entender e viver o amor. E é nessa encruzilhada que eu me encontro com Gil. 

Não acredito que declarar amor seja algo simples, da mesma forma que também não deveria ser um tabu. Mas a verdade é que muitas das vivências que temos durante nossa formação, que é constante e só finda nesse plano quando partimos, são menos afetuosas do que merecemos e aos poucos, sem que mesmo a gente perceba, o carinho e o reconhecer o valor do outro se tornou algo extraordinário.

‘Drão’ e ‘Nossa’ são duas declarações desenfreadas de amor. Penso nelas como duas cartas sonoras escritas e tocadas por Gil e que apresentam o amor em diferentes pontos da jornada da vida. 

‘Drão’ é sobre a grandiosidade do amor que se eterniza, deixando o estigma do fim como encerramento e trazendo um olhar maduro de que o término é apenas um instante diante da grandeza de um amor que tanto já construiu. É o amor como desdobramento de uma vida, onde se pode olhar para tudo que foi vivido e ser grato, sem peso, sem mágoas.

Se a primeira é uma carta de despedida com o reconhecimento de um legado de amor, ‘Nossa’ é um convite para construir. É um amor recém descoberto, onde Gil convida Flora para pegar em sua mão e ir nessa jornada com ele. Lembra a carta 0 do tarô, o Louco, que faz do inicio uma imensidão de possibilidades, o se jogar na vida e as paixões sem medo. 

Gilberto Gil canta a complexidade de um sentimento que se desdobra em muitos em ‘Drão’ e ‘Nossa’. É o perceber nas memórias um refúgio de afeto e de ressignificação, o olhar para a vivência com o carinho que só é possível quando a maturidade esvai a mágoa, o ressentimento. Ao mesmo tempo que é natural a nós o recomeço, amar outros e ter diferentes quereres.  

Em um caminho tão múltiplo como a vida, somos apresentados a camadas de amor e muitas vezes precisamos estar atentos para senti-las, reconhecê-las e principalmente, cuidá-las. 

Curiosamente hoje é um dia especial para três amigos semeados em diferentes momentos da minha vida e que além de terem em comum minha amizade e amor celebram e são celebrados por diferentes motivos nessa data. Que os amores nunca faltem, que estejam sempre atentos e abertos aos afetos e que a vida sempre os emocionem. Escrever sobre o amor também é uma ode a vocês.  

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