Adele e os limites precisos no álbum 30

Adele e os limites precisos no álbum 30

Adele na capa do álbum ’30’ | Crédito: Divulgação/Sony

Escrever sobre o álbum 30, da Adele, tomou mais tempo do que eu planejava. Prometi uma resenha para o dia 19 novembro de 2021, dia do lançamento mundial nas plataformas, mas os dias correram e eu fiquei adiando com a culpa de quem procrastina. Só agora percebi, enquanto finalmente escrevo, que não se tratava de preguiça ou bloqueio criativo. 

A profundidade e identificação que Adele desenha em 12 faixas toma proporção íntima. Sou partidária de uma escrita pessoal, com cheiro de crônica ou autoficção, e essas letras me levam ao exato ponto em que me enxergo projetada nos 3 atos cantados por ela em 30.

Adele sempre deixou claro o quanto seus trabalhos são registros de seus ciclos. Foi assim com a jovem que lidava com as primeiras frustrações em 19, com as desilusões dilacerantes de 21  e a mulher apaixonada e entregue aos sentimentos de 25

30 é um retrato de alguém que não apenas se depara com novas dores e decepções, mas com a complexidade de sentimentos que vêm à tona quando simplesmente deixamos ir os supérfluos da vida. 30 é sobre uma mulher que cansou de tentar se encaixar nos padrões para ser aceita e colher migalhas de felicidade.

Adele trouxe sua vida adulta para um divã público, com direito a luto, catarse e aceitação. 

1º Ato: Luto

O fim da relação como fato e alegoria se desdobram naquele que eu considero como 1º ato do álbum. Como fato porque desnudam a angústia e a culpa pelo que não deu certo no relacionamento com o ex-marido, quase em um tom de “não é sobre você, sou eu”. 

São letras de quem está remoendo sentimentos tentando entender a si própria. A frustração e a culpa que ela toma como dela nessa primeira parte do disco é também alegórica porque não se restringe ao casamento, mas com a reflexão de que ela própria ainda tem muito a se conhecer.  

“I’ll be taking flowers

To the cemetery of my heart

For all of my lovers

In the present and in the dark” 

Strangers By Nature

Esse luto se manifesta literalmente na letra de Strangers By Nature. Ao cantar sobre levar flores para o cemitério do seu coração ela sente que tudo que está acontecendo é um rito de passagem. O amante do presente e os do passado(que ela cita como “in the dark”) abrem espaço para uma análise de si mesma. 

“Go easy on me, baby!

I was still a child

I didn’t get the chance to

Feel the world around me

I had no time to choose what I chose to do”

Easy On Me

No single Easy On Me, Adele se mostra vulnerável e ciente de que não estava pronta para o compromisso que um casamento socialmente e afetivamente requer. Ela expressa o quanto estava desconfortável com essas responsabilidades, mas também deixa claro que sentia muito pelas coisas terem desandado. 

“I wanted you to have

Everything I never had

I’m so sorry if what I’ve done

Makes you feel sad”

My Little Love

Como já foi muito falado, My Little Love se trata de uma carta aberta ao filho Angelo. Com toda a cobertura que os tabloides ingleses fizeram de todo seu processo de divorcio e a própria dificuldade de explicar seus sentimentos sobre tudo que ocorreu ao filho de 9 anos, ela escreve em “carne viva” para o Angelo do amanhã.

É uma volta de Adele à própria dor do vácuo paterno em sua vida(“I wanted you to have Everything I never had”). Em entrevista recente a Oprah, ela falou sobre hoje entender que a doença de seu pai(alcoolista) foi impeditivo para a presença dele na sua vida, o que indica o quanto ela tem ou estava trabalhando o assunto em sua mente. 

“I can’t get no release

I’m so tired of myself

I swear I’m dead in the eyes

I have nothin’ to feel, no more

I can’t even cry”

Cry Your Heart Out

Lidar com esse turbilhão de sentimentos trazidos à tona pela separação é cansativo. A cantora aponta esse esgotamento em Cry Your Heart Out. Entre um processo burocrático que se estendeu por dois anos(o divorcio só foi finalizado recentemente) e uma guerra interna que se iniciou antes mesmo do fim da relação, Adele se mostra drenada.

Mas drenar também é se preparar para o recomeço. E nesse ponto, ela também traz nessa letra o vislumbre desse lugar de reorganizar-se internamente para fechar esse ciclo. 

“Cry your heart out, it’ll clean your face

When you’re in doubt, go at your own pace

Cry your heart out, it’ll clean your face

When you’re in doubt, go at your own pace”

Cry Your Heart Out

2º Ato: Catarse

A catarse é o momento da purgação pelo extremo. Adele sobe o tom de sua dor e rasga as vestes para intensificar seu processo. E agora ela começa a apontar com alguma clareza para esse lugar de ruptura que é o perceber-se adulta.

“I’m a fool, but they all think I’m blind

I’d rather be a fool than leave myself behind

I don’t have to explain myself to you

I am a grown woman and I do what I want to do”

Oh My God

Em Oh My God ela assume o desejo de liberdade, expõe o novamente o quanto não se sentia preparada para continuar no casamento. Ao mesmo tempo que se mostra aterrorizada com a insegurança de estar tomando a decisão errada, já que reconhece o quanto aquele amor que Simon lhe deu a fez bem(Boy, you give good love, I won’t lie. It’s what keeps me coming back even though I’m terrified). 

Oh My God evidencia um conflito entre o que ela sente ser o melhor pra ela e o medo de abrir mão por completo de uma relação “estável”.

“Throw me to the water

I don’t care how deep or shallow

Because my heart can pound like thunder

And your love, and your love can set me free”

Can I Get It

Esse conflito ganha intensidade em Can I Get It, que soa como um pedido para tentar fazer as coisas funcionarem mais uma vez. Como se o amor de Simon fosse o suficiente para manter os dois juntos, Adele canta o apego ao estável. Ela tenta emudecer seu desejo por liberdade e fala sobre continuar requentando uma relação que ela já sentia que não poderia mais levar a diante.  

“When I was a child every single thing could blow my mind

Soaking it all up for fun, but now I only soak up wine

They say to play hard, you work hard, find balance in the sacrifice

Yet I don’t know anybody who’s truly satisfied”

I Drink Wine

I Drink Wine é o ponto alto do álbum para mim. É um vislumbre de êxtase em meio a tanta complexidade de sentimentos cantados por ela em 30

O vinho como escape do turbilhão, se apresenta em meio a questionamentos e afirmações que dão conta desse cansaço por tentar sempre se enquadrar na regra dos outros. Se em Can I Get It ela tenta requentar o feijão da semana passada que era sua relação amorosa com Simon, em I Drink Wine ela sabe que a “racionalidade” da manutenção desse casamento é quase um insulto ao seu desejo de liberdade(putting ideas in our heads that corrupt our hearts somehow).

“It’s so hard to digest

Usually I’m best alone

But every time that you text

I want to get on the next flight home

And dream next to you

All night long”

All Night Parking

All Night Parking é a última gota do vinho bebido I Drink Wine. Agora Adele emerge como quem diz “opa, existe vida após o amor”. Depois da via crucis que foi digerir o fim do casamento, ela se depara com uma nova paixão.

O interlúdio que se desenha em All Night Parking conecta o fim de um estado de digestão da separação e de toda angústia que veio a tira colo, com a clareza do que ela realmente deseja viver dali pra frente. All Night Parking é sobre aceitar um novo começo, mesmo que ele seja desafiador(um relacionamento de longa distância). 

3º Ato: Aceitação 

Junto com a digestão dos fatos e a configuração mental que todo o processo causou, vem no comboio as caixinhas de responsabilidade que cada envolvido precisa tomar para si. É uma aceitação do que lhe cabe nesse latifúndio e o que é dos outros. Adele pega o que é seu e manda o delivery de entulhos que não quer mais carregar em sua mente. 

“Complacency

Is the worst trait of to have, are you crazy?

You ain’t never had, ain’t never had a woman like me

It is so sad a man like you could be so lazy”

Woman Like Me

Uma mulher que sabe seu valor real se manifesta em Woman Like Me. É a consagração da ficha que caiu de não ser a única responsável pelo fim do relacionamento. Se em Easy On Me ela se rasgou em culpa, em Woman Like Me ela toma um estado de consciência e posiciona cada um no seu quadrado de responsabilidades.  

“Hold on

You are still strong

Love will soon come

Just hold on”

Hold On

Uma oração a si mesma. É esse o sentimento que Hold On causa quando nos entregamos a ouvi-la. É como se olhar no espelho após um dia intenso e dizer “aguenta firme”. É de um lugar de autocuidado e amor próprio muito grande parar, se enxergar e rogar por paciência a si mesma em meio a tantos acontecimentos. 

Adele percebeu em todo seu processo de autocuidado e busca por se ouvir mais a necessidade de deixar o tempo posicionar tudo em seu devido lugar. Ela tem consciência do que ainda precisa ser trabalhado(“I’m my own worst enemy. Right now I truly hate being me”), mas ela sabe que precisa ser gentil consigo mesma(“Let time be patient(You are still strong) Let pain be gracious”). 

“Looking back I don’t regret a thing

Yeah, I took some bad turns that I am owning

I’ll stand still and let the storm pass by

Keep my heart safe ‘til the time feels right”

To Be Loved

Esse lugar do se ouvir e do dar espaço para os próprios sentimentos é retomado em To Be Loved. Nessa canção Adele dá conta de que para ser amado é necessário se amar e não negociar o que realmente importa em concessões de migalhas. 

Ela quer amar novamente, mas sem colocar suas expectativas em algo que não seja saudável e que a faça se desprender de sua essência novamente.  

“I can love

I can love again

I love me now like I love him

I’m a fool for that”

Love Is a Game

30 completa o retorno em  Love Is a Game. Nessa música Adele se assume pronta para amar novamente porque sabe que merece não apenas ser amada, mas que se ama na mesma intensidade que se permite amar o outro. 

Ela sabe das imperfeições de um amor não idealizado e assume o quanto é  torturante impor expectativas inalcançáveis em cima de uma relação. E mais do que isso, ela não se ilude em pensar que tudo não pode acontecer novamente.

Adele nos presenteou com um diário musical de seu encontro com Saturno, planeta que ela agora tem tatuado no antebraço. Para mim, que estou enxergando os 30 anos da fresta da porta, ouvir esse registro em forma de álbum é entender mais e mais sobre os cortes que nossos ciclos nos apresentam. A vida sempre arruma um jeito de se impor, mais cedo ou mais tarde nos deparamos com os limites precisos.

Quer conhecer mais? Visite a Cabana Da Música. Siga nosso conteúdo no Instagram e no Twitter.

%d blogueiros gostam disto: